quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Acesa em Mim!

Lembro confusamente desse dia. Era de tarde. Lembro que meu irmão era miúdo, muito menor do que eu. Faz muito tempo. Mas a moeda já era o real. Nós chegávamos da feira. A gente sempre ia à feira. Fosse sexta no Conforto ou sábado no Aterrado. Só não íamos na Vila aos domingos porque era muito movimento. Comprava-se de tudo. Mixirica, bermuda jeans e drops Paquera. Mixirica com i mesmo, porque mexerica com e não é mixirica, é pokan.

Nessa tarde nós chegamos e minha mãe foi verificar a correspondência. Tinha lá uma carta. Anônima. Ela leu em silêncio. Meu irmão pulava os degraus da escada e ela gritou um Sossega! tão forte que ele sentou quietinho na beira da varanda. Eu vi que ela estava com o semblante pesado. Rasgou a carta em dois pedaços e embolou bem apertado.

Eu perguntei o que era e ela disse que era uma carta anônima. Falando que seu pai tem outra mulher. Eu fiquei em silêncio ao lado dela, ela com aquele papel emboladinho na mão. Dali da caixa de correios ela se levantou com as sacolas (as sacolas já eram de plástico, logo não faz tanto tempo assim) e com o emboladinho e mandou a gente ver tevê. Ela estava tão séria. Eu fiquei com pena dela. E com raiva, porque eu suspeitava de quem tinha mandado aquilo. A massagista!

Mas minha mãe me deu um tipo de lição quando ela embolou a carta, catou as bolsas e mandou a gente ver tevê; ela já tinha outra expressão no rosto. A expressão da mulher a quem venho me assemelhando fortuitamente. A gente não se dá conta disso, mas se transforma na própria mãe com o passar do tempo. Parece que a espécie precisa manter acesa a lembrança daquela que nos gera. Filhos homens ou filhas mulheres tendem a eternizar suas mães. Usar suas expressões. Reproduzir suas caras. Julgar o próximo da mesma maneira.

Nunca foi confirmado se meu pai tinha outra ou não. Nunca mais chegou carta alguma. Naquela mesma tarde ela fez duas fornadas de biscoito de nata (aliás, nunca mais comi, parece que nata agora é coisa complicada de obter, malditos leites de caixa). Minha mãe só chorou 4 vezes na minha frente. Quando o pai dela morreu, uma vez que eu briguei feio com meu irmão, uma vez no casamento de uma vizinha (porque era muito bonita a mensagem que não-sei-quem leu no altar) e a quarta vez foi quando eu disse a ela pela primeira vez que eu a amava. Eu tinha pra lá de vinte e cinco anos já. E só fui capaz de dizer isso a ela vinte e cinco anos depois de ser alfabetizado. Mas disse.

Ela chorou e disse que aquilo era uma bobeira e que se eu amasse ela mesmo era pra parar com o cigarro Porque se seu avô não tivesse fumado, tinha resistido à cirurgia, mas também, coitado!, se tivesse resistido, ia ficar na quimio sofrendo e dando trabalho ainda pra gente. Olha a sua tia com doce de abacaxi e pavê no mesmo pratinho. Pergunta se ela quer uma bacia.

Mãe, eu tô dizendo que eu te amo. Ouviu?

Ouvi. Mas a vida continua, não dá pra ignorar.

domingo, 27 de setembro de 2009

Cosme e Damião

Esse café tem gosto de bunda!; pensou Cleonice consigo mesma dando uma cuspidinha na pia da cozinha depois de virar num gole só o copo todo. Cuspiu sem querer sobre a bucha de esfregar as louças. Só segunda-feira!, resmungou para a pilha de pratos e copos que imploravam limpeza. Abriu a geladeira Que aí quando eu voltar já descongelou. Nunca mais compro desse pó. Café tem que ser bom. Café e papel higiênico. Tem coisas que não dá pra economizar. Buscou o pacote no armário. Pimpinela... Semana que vem não vou no Mundial. Vou no Prezunic! Lá a gente tem paz! Só o Prezunic me dá paz! Aí compro com calma e não caio nessa do preço baixo. Pimpinela...

O sol berrava lá fora. Passou um batom cor de boca e botou a viseira na bolsa. Cleonice tinha um dia de missão. E ainda vai ter passeata com aquela mulher do meio-ambiente, vai estar um caos aquela praia. Passou a mão na pilha dos folhetos sobre o rack Marselha e saiu de casa. Aquela moça do meio-ambiente tem um olhar forte, é, ela tem, pensou descendo o elevador. Um bom-dia ali, outro acolá, e logo estava na orla.

Diga não ao Cosme e Damião, diziam os folhetos que ela entregava às crianças. Porém se alguém vos disser: isto é coisa sacrificada a ídolo, não comais, por causa daquele que vos advertiu e por causa da consciência, está em Coríntios um, capítulo 10, versículo 28. São os que servem a demônios que comem, lambem, salivam, amaldiçoam, praguejam, encantam!, amarrando as crianças a estes demônios e mais tarde advirão as consequências! Que horror uma mulher dessa idade com biquini tão pequeno, refletiu enquanto pregava. Horrorosa! Não compactues com as ciladas de Satanás por mais gostosas que elas se apresentem!

Diante de crianças que se deliciavam com docinhos, ela orava em silêncio com as mãos espalmadas. Cleonice panfletava sem sorriso algum. E quando o Del-Rey cinza metálico parou em frente a Help e dele saiu um casal que distribuía saquinhos recheados, ela pôs-se a um metro e avisava aos garotos sobre o perigo que ali estava. Umas crianças tudo grandes, onde já se viu? Olha como celebram já encantados pelos demônios! Parecem pombos que voam no milho! As crianças a ignoravam, o casal ria dela. Suas palavras o vento levava.

As palavras e os panfletos, feitos por ela no Power Point, voavam. Quando a passeata ecológica passou pela avenida Atlântica, os verdes marcharam indiferentes sobre todo aquele papel. O sol a enchia de comichões. O Pimpinela ardia no céu da boca. Por mais que se desdobrasse contra Cosme e Damião, a cada passo dava com alguém petiscando o sabor da indiferença. Deus! Tomada por comichões e inquietudes voou no menino de 7 anos.

Rolou com a criança no asfalto quente atracada a ele, tentando a todo custo tirar-lhe das mãos a geleia branca e vermelha com açúcar cristalizado. É do capeta! É do capeta! O menino de 7 anos berrando atraiu a atenção da mãe que batia um papo sob o coqueiro. E nisso a mãe do menino de 7 anos atracou-se a Cleonice e da varanda do Hotel Ceyao as pessoas se perguntavam que tipo de manifestação cultural era aquela. É do capeta! É do capeta! Na defesa do menino de 7 anos, a mãe do menino de 7 anos jogou longe uma esfarrapada Cleonice. É do capeta, é do capeta! É de chuchu, é de chuchu! Essa geleia branca e vermelha é de chuchu!

Vaiada, Cleonice se retirou manca e chorosa. É de chuchu, gente! Passou na padaria Lírio do Tejo, comeu um delicado doce de abóbora em forma de coração e já em casa tomou um banho.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Mulher à Frente do Cortejo

Quando nosso amor começou, tudo eram flores.

Ele me vinha todas as noites com aquele sorriso branco virgem de café e iluminava minha casa. Estendia a jaqueta sobre as poças para que eu as atravessasse. Dizia que o mundo agora sim, por minha causa, tinha sentido. Me escreveu um poema, me embalou na rede, me fez mulher. Demonstrou-me todos os malabarismos possíveis sobre o colchão, fui sua ginasta. Dividiu comigo seu pão e seu sonho. Ensinou-me a diferença entre a mentira e a verdade. Fomos à forra na geografia! Traduziu aquela canção. Pegou do pé aquela fruta. Mas um dia as flores, as tais que eram tudo lá no começo, murcharam. No limiar da primavera. Murcharam.

Calhou de morrer numa tarde nublada e quente no fim de setembro. Descansou enfim. E agora todos descansaremos também.

À frente do cortejo eu trouxe este retrato de 1989. O único que tiramos juntos. Descanse em paz, meu bem.

(TERRA)

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Um Tipo de Silêncio

Quando chegou em casa antes da meia-noite e finalmente podia trabalhar, W.A. perdeu-se num dilema mortal: coca ou café. Porque não fazia nem frio nem calor e a bem da verdade não tinha sede. O tempo ia e ele lá, com o filtro de papel na mão, a geladeira aberta.
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Vai na coca; disse-lhe a velha gorda, surgindo de trás da porta da geladeira.
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Quem é você?
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Não lembra?
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Ele olhou para aquela mulher baixota, perdida na própria gordura e vestida em listras e reconheceu: era a velha da confusão na fila do mercado, a Zuleica!
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Só que meu nome é Fátima. Por que você acha que eu tenho cara de Zuleica?
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W.A. não entendia nada. A porta trancada, com a corrente passada afinal. Mas não soltou o filtro de café. A mulher pegou a coca e serviu duas canecas e brindou no ar antes de beber.
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Como você entrou?
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Com você.
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Ele recuou dois passos e ficou a observá-la, mais ou menos como se faz diante das baratas quando não há força suficiente para esmagá-las.
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Você precisa ir embora, eu tenho que trabalhar, preciso ficar sozinho...
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Esse é seu mal; emendou uma voz masculina que vinha da área de serviço. Você nessa de ficar sozinho acaba o quê? Infeliz. E sobra pra quem? Pras pessoas normais. Pra nós.
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Concordo; disse Fátima antes de um arroto.
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Porque você não faz a mínima questão de se aproximar, de nos abordar. Sai por aí fabulando sobre as nossas vidas da maneira mais estapafúrdia. Eu, por exemplo, não vivo um casamento infeliz, porque não sou casado, bebo sozinho todo dia naquela mesma mesa porque sou enfermeiro e trabalho o dia inteiro com doentes terminais, aí no fim do dia preciso de uma dose pra aliviar. Viu como é muito diferente das suas cogitações?
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Nem eu sou Zuleica-solteirona-viciada em novelas. Sou casada com um cardiologista renomado e tenho um relacionamento de sete anos com um vereador de Niterói. Sou professora do curso de Antropologia na federal fluminense e na hora das novelas estou em sala de aula. E faço confusão no mercado sim, faço confusão porque carioca adora furar fila. Deve ser pressa pra fazer uma passeata da paz!
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E eu sou homem!; disse a linda loira de ascendência sueca que cuidava dos dentes no Edifício Cecisa. E nem loira natural eu sou. Meus pais são de Quissamã e meu nome de batismo é Yuri. Você jura que me achou linda?
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Olhando de perto W.A. percebeu que a linda loira, quer dizer, Yuri tinha o azul de uma barba mal coberta por maquiagem barata. Aliás, seu rosto era mais claro que o pescoço.
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E eu só vou no Edifício Cecisa porque tenho um cliente lá... O patologista da Diagnosticum.
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Você não acerta nada, heim...; disse o quarentão fracassado dos doentes terminais.
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W.A. atônito. Segurando o filtro de café e espremido naquele apartamento diante daquelas pessoas com quem ele acabara de esbarrar na rua, ele sacou o telefone.
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Você não é louco de chamar a polícia!; disse o magrelo gay que perguntou as horas no metrô e ouve Suede. Aliás, eu não sou gay e não conheço Suede.
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Não é possível! Você tem voz de gay!
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Eu só falo fino assim porque não tenho os testículos. Mas não sou gay. E gosto de reggae. Suede canta o quê?
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Não tem testículos? Se eu pudesse te dava os meus; disse a loira chamada Yuri.
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E eu te dava minha voz.
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Eu seria eternamente grata.
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Mas eu gosto de você assim, com essa voz e com testículos; disse agressivamente e vindo do quarto o carinha que passa o dia malhando, come gema crua de manhã, mora com a mãe e joga rugby. Aliás, amigo, você se enganou comigo também; completou ele; eu não jogo rugby. Sou patologista na Diagnosticum.
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É... Parece que você está em crise, meu caro!; alfinetou o enfermeiro das doses terminais.
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Não dá pra ser simples né?; provocou Yuri, a linda loira barbada de Quissamã.
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Estamos aqui para ajudar; completou Zuleica e/ou Fátima.
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Exatamente. Queremos trazer um pouco de vida real pra você; sugeriu o sem-testículos do reggae.
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W.A. só conseguiu gritar! Saiam daqui, xô e variações do gênero. Vocês não servem pro que eu quero! Eu vou fechar os olhos e quando abrir não quero ninguém aqui. E assim foi. Abriu primeiro o olho esquerdo. Só quando certificado de que eles não estavam por lá, teve coragem de abrir o outro. Estranho silêncio, parecia paz. Desfez-se do filtro de café e decidiu-se pela coca. Ligou o computador e diante da página branca do Word ficaria até às cinco da manhã em busca das primeiras palavras, do despertar dos personagens. Em busca de uma verdade qualquer.
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Mas só o vazio e o nada. Esse sim, um tipo de silêncio que conhecia bem.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Viver a Vida (num Ônibus de Linha)

1
Dez pras cinco da manhã Helena chega ao terminal. Vestida num justo uniforme verde e calçando botinha preta engraxada com aprumo, ela petisca um enrolado de queijo e presunto vendido por D.Sandra.

Helena - Amanhã eu folgo, dona Sandra.
Dona Sandra - Bendito seja!
Helena - Cedinho pego a estrada. Vou esticar até a casa da minha irmã em Maricá. Passar o dia em Maricá!
Dona Sandra - A gente merece descansar.
Helena - Merece... Esse enroladinho está uma delícia hein...
Dona Sandra - Fresquinho é outra coisa.
Helena - Nada como a comida fresca.
Dona Sandra - Engraçado que eu não gostava de presunto. Comecei a gostar depois de velha.
Helena - Presunto é divino, dona Sandra, divino!
Wladimir - Vamos, Helena!
Helena - Vou lá, dona Sandra! Até meia-noite!
Dona Sandra - Vou guardar um enroladinho pra ti.
Helena - A senhora é única, dona Sandra!

2
Wladimir acende o motor, liga o rádio e entra uma singela canção de Gal Costa. Helena recostada no banquinho de cobradora admira a paisagem do cais do porto.

Helena - (off) O Rio tem essa magia que não tem em lugar nenhum. Nem Maricá, nem Caxias, nem Cabo Frio. Nem Niterói! Eu escolhi o Rio. Aqui eu me fiz a mulher que sou hoje. Devo tudo ao Rio. É a cidade que escolhi para ter meus filhos, para fazer carreira. Mas ainda falta alguma coisa. E eu tenho certeza de que ainda vou encontrar. Sou obstinada. Em algum canto dessa cidade ele há de estar: o meu amor.

Música aumenta.

3
Ponto na Avenida Rio Branco. Meio-dia já. O ônibus está cheio. Entra um casal de idosos que não encontra lugar para sentar.

Idosa - Eles agora colocam bancos a menos para nós. Nos dão a gratuidade e nós que fiquemos em pé.
Idoso - E os jovens ainda se sentam nos bancos da gente e fingem que dormem quando nos vêem entrar.
Idosa - Ah, meu velho... Eles pensam que serão eternamente jovens...

Helena arma um rebu em defesa dos idosos e discute com adolescente que se recusa a ceder o assento.

Adolescente - Ai, que inferno esses velhos!
Helena - Não folga comigo não! Olha o cartaz! Destinado a idosos, gestantes e deficientes.
Adolescente - Eu tô grávida!
Idosa - Tão jovem...
Wladimir, o motorista - Hoje elas saem embarrigando de qualquer um.
Helena - Que situação...

4
Na Cinelândia, uma freada brusca joga o casal de idosos no chão. A Idosa se machuca.

Helena - Ficou louco, Wladimir?
Wladimir, o motorista - O cara jogou o carro na minha frente, Helena, eu tive que frear.
Idoso - Minha velha, você está bem?
Wladimir, o motorista - Andam como búfalos!
Helena - Ela precisa de um médico.
José Mayer - Eu sou médico.

Troca de olhares. Slow motion. Silêncio. Gal Costa.

Idosa - Ai...

Música interrompida. Som da confusão volta.

José Mayer - Não toque nela, pode ter quebrado um osso. É melhor chamar uma ambulância.
Helena - Eles demoram muito. É melhor irmos de ônibus até o hospital.
José Mayer - Vamos então para a minha clínica.
Helena - Você tem uma clínica?
José Mayer - Tenho. Fica no Leblon, vamos que no caminho eu explico.
Wladimir, o motorista - Vambora!
Idoso - Nós não temos plano de saúde.
José Mayer - Não se preocupe com isso. A senhora está bem?
Idosa - Dói. A bacia...
José Mayer - A senhora vai ficar bem.

5
Enquanto o ônibus segue pelo Aterro, Helena começa a comer sua quentinha. Percebe que José Mayer a observa.

Helena - Servido?
José Mayer - O que temos aí?
Helena - Arroz, abobrinha, tomate, almeirão. E um peito de frango.
José Mayer - Aceito um pouco do almeirão.
Helena - Se importa de não ter sal?
José Mayer - De forma alguma.
Helena - Tô tentando cortar o sal. O sal, o açúcar, o cigarro.
José Mayer - Faz muito bem.
Helena - Engraçado você. Um homem que tem uma clínica, que é o José Mayer, comendo almeirão num ônibus assim...
José Mayer - Eu não comia almeirão há anos.
Helena - Tem alguma coisa no seu olhar que eu quase identifico, mas me escapa.
José Mayer - Deve ser glaucoma.
Helena - Oi?
José Mayer - Nada, piada de médico.
Helena - Você é feliz?
José Mayer - Quem é?
Helena - Aquelas duas meninas abraçadas no banco de trás parecem felizes. Olha como se beijam.
José Mayer - Falou bem. As duas parecem felizes. Mas porque são duas. Ninguém é feliz sozinho.
Helena - Você não é casado?
José Mayer - Não. Eu sou um homem na eterna busca da felicidade a dois.
Helena - Tem almeirão no seu dente.
José Mayer - Ôpa!
Helena - Desculpa.
José Mayer - Que nada, obrigado. Não ficaria bem um beijo com almeirão no dente.
Helena - Um beijo?
José Mayer - Em você.

Beijo ardente; entra a Gal Costa...

6
Já na porta da clínica José Mayer Moretti, os enfermeiros acabaram de retirar a Idosa numa maca. O Idoso está sempre a seu lado. Helena acompanha tudo com o cabelo preso num coque. Apenas uma mecha balança ao vento.

Wladimir, o motorista - Vamos simbora, Helena?
Helena - Vamos em frente que a vida nos espera.

O ônibus vai saindo quando José Mayer aparece na porta.

José Mayer - Helena! Espera.
Helena - Para, Wlad, ele voltou!

O ônibus para; Helena coloca a cabeça pela janela.

Helena - Pensei que não fôssemos nos despedir.
José Mayer - Como faço pra te ver de novo?
Helena - Pega esse ônibus todo dia.
José Mayer - Como?
Helena - Piada de cobradora.
José Mayer - É sério, Helena.
Helena - Quer ir pra Maricá comigo amanhã?
José Mayer - Com você eu vou pra qualquer lugar.
Helena - Te encontro às sete na rodoviária.
José Mayer - Estarei lá. E caso você não me reconheça, estarei com flores.
Helena - Nunca me esqueceria de um rosto como o teu.
Wladimir, o motorista - Helena, a gente tem hora a cumprir...

Beijo ardente nº 2; Helena e José Mayer se dão as mãos e o ônibus sai lentamente, deixando suas mãos no ar.

Helena - É ele, Wladimir! É ele!

Entra a Gal Costa pela última vez.

Helena - Quando chegar em Copa, você dá uma parada no quiosque do Aloízio que eu preciso trocar essas notas de dez. Ai, Wlad! Tô louca! Meu Deus, o que é isso? Wlad: eu acho que vou me apaixonar!

Fim do Capítulo.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Tóquio

Definitivamente Tóquio não faz parte desse planeta.

Em quase um mês tem sido impossível identificar aqui qualquer coisa que eu já tenha visto noutro canto do mundo. Dos cheiros à gentileza. Agora que o trabalho deu uma acalmada posso conhecer melhor a cidade. Livremente. Ando analfabeto pelas ruas. Tem sido uma experiência desconfortante, confesso, mas libertadora. Eu me perco diariamente. Mas não me desespero, porque sempre me deparo com algum tipo de encantamento. E no fim do dia sempre encontro o caminho do hotel como quem retorna amparado pelo fio de Ariadne.

Ontem conheci Harajuku. Não é como a Mtv gostaria que fosse, mas tem lá seu charme. Soube que o fervo acontece mesmo aos domingos; numa trivial segunda-feira deste fim de verão eram poucos os cosplayers, os punks e as gothic lolitas. E para minha surpresa a Laforet estava fechada. Fui perambular pela Takeshita então, pra ver se conseguia encontrar os presentes que quero levar pros amigos. A Takeshita lembra a 25 de Março, com uma diferença: japoneses e não chineses. Comprei umas coisinhas bacanas e fui rodar as bolsas na Omotesando. Depois de gastar, nada melhor que um café.

Fui abordado por uma mulher entre o primeiro e o segundo gole do café. Uma bela japonesa com seus trinta e poucos anos. Em inglês disse ter gostado muito do meu ensaio (sim, o primeiro já está bombando em toda cidade), que meus olhos eram realmente lindos e minha cor igualmente linda. Perguntou de onde eu vinha e depois de se espantar com o fato de eu vir do Brasil disse que era abençoada a mistura que se dava nessas regiões menos desenvolvidas. Mas disse isso sem pedantismo, afinal era uma japonesa e não uma americana. Espantou-se mais ainda quando eu disse que não havia orientais em minha genealogia. Convidou-me para conhecer o seu ateliê.

Eu aceitei. Malditos os anos em que morei no Rio, onde se vai na casa de qualquer um sem titubeios. Fui sem maldade. Hoje quando contei para a produtora sobre isso ela me disse que japoneses têm muito prazer em receber mas raramente convidam para suas casas e que fui ingênuo. Lá no ateliê, Mazuko (era esse o nome dela) me mostrou suas telas e perguntou se eu posaria pra ela. Mais uma vez os anos cariocas falaram alto e aceitei. Ela agradecia se curvando, com sorrisos que lhe sumiam os olhinhos e pediu que eu ficasse à vontade. Sentei numa cadeira e fiquei à vontade. Ela pediu então mais uma vez que eu ficasse à vontade. Eu estou. Ela fez um gesto e aí caiu minha ficha. Ela queria que eu ficasse nu.

Dei aquele sorriso amarelo e disse que não, que era tímido, que estava frio. Mazuko fechou o semblante e num tom ríspido mandou que eu tirasse as roupas. Ameacei sair e ela me derrubou no chão num golpe sabe-se lá de quê. E mal caí ela arrancou-me as calças num átimo. Depois a camisa e em dois segundos fiquei completamente nu e no chão. Tão logo me viu ali todo arreganhado, estirado e nu, congelou no ar.
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Ajoelhou-se diante de mim em posição de reverência. Silêncio. Eu me ergui zonzo e ela deteve-me com as mãos nos meus pés. O silêncio era total. Fiquei sem ação. Ao mesmo tempo que estava tomado de susto fiquei com uma certa pena, não sei explicar, ela parecia tão transtornada, tão transfigurada que temi em me desvencilhar. Ela vendo que eu me deixava ficar, pôs-se a lamber meus pés. Chupava meus dedões, passava a língua entre os dedos e tudo com suaves grunhidos ou dizendo alguma safadeza em japonês, sei lá. Meus pelos se eriçaram. O sangue correu todo pro mesmo lugar, adivinhe qual! E antes que eu mergulhasse mais ainda na estranheza daquela situação, me afastei dela. Vesti-me, apanhei as bolsas, calcei meu tênis e antes de sair olhei pra ela. Estava prostrada em silêncio, com as mãos estendidas diante do corpo encolhido, testa ao chão.

Assustado e visivelmente excitado passei diversas vezes pela estação sem me dar conta. Estranho esse tipo de excitação. Foi quando ouvi um som peculiar. Algo que pude identificar como brasileiro e que naquele momento me afagava a alma. Uma música. Segui o cheiro dos compassos e dei numa loja de discos da Ura-Hara. E reconheci: tocava Elba Ramalho. Sentei-me à porta e quando a canção acabou, meu corpo era calmo e pude caminhar até o metrô. Hoje no hotel todos riram de mim. Dizem que fui vítima da Louca de Harajuku, uma tailandesa que atrai vítimas dizendo-se pintora e costuma sodomizar os homens depois de pintá-los.

E eu feliz porque não há baratas, pedintes nem suco de caju em Tóquio.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Pequenos Diálogos Quotidianos 5 (O Amor)

Quando você pensa no futuro, o que te vem à cabeça?
A morte.
Só?
Só.
E quando você pensa em amanhã?
Amanhã?
É.
Amanhã eu vou levantar, tomar café, andar pelo jardim, almoçar, cochilar, depois vou pra sala de tevê.
E a morte?
Como assim a morte?
Ué, amanhã é futuro. Cadê a morte?
Ah, não. Amanhã não é futuro. Amanhã é quase hoje. Futuro é o futuro! Décadas adiante!
Será que a gente ainda aguenta uma década?
Nunca se sabe...
Seria bom. Mas só se estivermos com saúde.
Ah, é. Com saúde. Como tem sido até hoje.
Com saúde e sonhos.
Sonhos?
De que adianta viver sem os sonhos, meu bem?
Ah, minha velha, isso é pros novos.
Nada disso. Nós também temos esse direito.
O direito temos, a gente não tem é idade. Sonhar com essa idade soaria senil.
A gente tem a idade que acha que tem. Não a que tem.
Meu corpo precisa saber disso.
Não tem nada a ver com corpo.
E pensar que eu já fiz remo!
Foi quando me apaixonei por você.
Eu lembro de você me acenando com o lenço na beira da Lagoa.
Lembra o dia que ventou e o lenço voou?
Lembro. Foi tão bonito. Aquele lenço branco voando... Eu mergulhei só pra pegar ele pra você.
Foi. Só que não era branco. Era rosa.
Era branco, tenho certeza.
Era rosa, meu bem. Eu tenho certeza.
Eu peguei ele na água, era branco.
Não era. Era rosa.
Tá bom, era rosa então.
Claro que era rosa.
Era rosa sim. Muito rosa!
Ih...
Já concordei com você, não precisa ficar repetindo.
Acho que já vão servir a sopa.
Tomara.
Viu a enfermeira nova?
A moreninha?
É. Viu os dentes dela?
Não.
Tudo encavalado!
É mesmo?
Vou fazer ela rir pra você reparar.
Vou reparar, pode deixar.