Lembro confusamente desse dia. Era de tarde. Lembro que meu irmão era miúdo, muito menor do que eu. Faz muito tempo. Mas a moeda já era o real. Nós chegávamos da feira. A gente sempre ia à feira. Fosse sexta no Conforto ou sábado no Aterrado. Só não íamos na Vila aos domingos porque era muito movimento. Comprava-se de tudo. Mixirica, bermuda jeans e drops Paquera. Mixirica com i mesmo, porque mexerica com e não é mixirica, é pokan.
Nessa tarde nós chegamos e minha mãe foi verificar a correspondência. Tinha lá uma carta. Anônima. Ela leu em silêncio. Meu irmão pulava os degraus da escada e ela gritou um Sossega! tão forte que ele sentou quietinho na beira da varanda. Eu vi que ela estava com o semblante pesado. Rasgou a carta em dois pedaços e embolou bem apertado.
Eu perguntei o que era e ela disse que era uma carta anônima. Falando que seu pai tem outra mulher. Eu fiquei em silêncio ao lado dela, ela com aquele papel emboladinho na mão. Dali da caixa de correios ela se levantou com as sacolas (as sacolas já eram de plástico, logo não faz tanto tempo assim) e com o emboladinho e mandou a gente ver tevê. Ela estava tão séria. Eu fiquei com pena dela. E com raiva, porque eu suspeitava de quem tinha mandado aquilo. A massagista!
Mas minha mãe me deu um tipo de lição quando ela embolou a carta, catou as bolsas e mandou a gente ver tevê; ela já tinha outra expressão no rosto. A expressão da mulher a quem venho me assemelhando fortuitamente. A gente não se dá conta disso, mas se transforma na própria mãe com o passar do tempo. Parece que a espécie precisa manter acesa a lembrança daquela que nos gera. Filhos homens ou filhas mulheres tendem a eternizar suas mães. Usar suas expressões. Reproduzir suas caras. Julgar o próximo da mesma maneira.
Nunca foi confirmado se meu pai tinha outra ou não. Nunca mais chegou carta alguma. Naquela mesma tarde ela fez duas fornadas de biscoito de nata (aliás, nunca mais comi, parece que nata agora é coisa complicada de obter, malditos leites de caixa). Minha mãe só chorou 4 vezes na minha frente. Quando o pai dela morreu, uma vez que eu briguei feio com meu irmão, uma vez no casamento de uma vizinha (porque era muito bonita a mensagem que não-sei-quem leu no altar) e a quarta vez foi quando eu disse a ela pela primeira vez que eu a amava. Eu tinha pra lá de vinte e cinco anos já. E só fui capaz de dizer isso a ela vinte e cinco anos depois de ser alfabetizado. Mas disse.
Ela chorou e disse que aquilo era uma bobeira e que se eu amasse ela mesmo era pra parar com o cigarro Porque se seu avô não tivesse fumado, tinha resistido à cirurgia, mas também, coitado!, se tivesse resistido, ia ficar na quimio sofrendo e dando trabalho ainda pra gente. Olha a sua tia com doce de abacaxi e pavê no mesmo pratinho. Pergunta se ela quer uma bacia.
Mãe, eu tô dizendo que eu te amo. Ouviu?
Ouvi. Mas a vida continua, não dá pra ignorar.